(do livro CONTANDO CASOS... SANTOS, Prof Wladir dos, MM – MAX 1986- SP)
Insto era o único dentre nós capaz de sair do
bairro, circular pela cidade e voltar são e salvo. Nosso mundo era pequeno,
representado pelo quarteirão da Prudente de Moraes, entre a José Pinto de
Almeida e a Sta. Cruz.
Os mais velhos também saíam, mas isso era raro. Contudo,
nós íamos ficando cada vez mais velhos, sem que tivéssemos consciência disso. O
meu mundo se alargava quase que a olhos vistos, e já me arriscava a chegar ao
Largo de Santa Cruz, à Igreja do Bom
Jesus, à casa dos meus avós (bem no fim da Sta Cruz e início da Carlos Botelho)
e, vez por outra, até a praça central, mas evitando sempre passar pela rua
Benjamim, pois ali era o prostíbulo e minha mãe recomendava que nunca
circulasse nessa rua.
Na Paulista havia um pomar enorme, belíssimo, pertencente aos frades, onde
podia-se avistar por sobre o altíssimo muro, durante o ano todo, árvores
carregadas de frutas. Eu nunca tinha circulado por lá, no outro extremo da
cidade, coisa que só Tinho, Didi e Insto faziam. Um dia um deles chegou até
ali, bateu à casa dos frades e pediu algumas frutas. O frade não deu, e teria
respondido muito marotamente: “se quiser frutas vá plantar”. Ele estava certo,
mas demorava para crescer, e a vontade era naquele dia, naquela hora... O frade
não entendia sobre vontades de crianças, provavelmente porque nunca tinha sido
uma ou não tinha filhos.
Com certa freqüência Insto ia até esse pomar dos frades
roubar frutas que distribuía a todos nós.
Ele gostava mesmo era de roubar e distribuir, provavelmente
se sentindo um herói ou pessoa muito importante, com todos pedindo-lhe
insistentemente alguma fruta. Fazia
questão de distribui-las ele mesmo, uma a uma, e preferia dar aos menores.
Coitado do Didi! Já estava cansado de pedir em vão, pois além da primeira (que
todos recebiam), não via mais nenhuma.
Ele mesmo tinha comido tantas no próprio pomar que nem se
importava em ficar sem mais algumas.
Certa feita veio
com a camisa toda manchada de tinta, pelo que levou uma surra do pai.
Ele tinha ido
roubar uvas (era dezembro e as parreiras estavam forradas de enormes cachos de
uvas pretas, daquelas que os frades faziam vinho), e as colocara dentro da
camisa, de sorte que ficara recheado com elas, em torno do corpo todo,
dando-lhe um aspecto um tanto grotesco, como se fosse uma pêra com pernas e
braços.
Nessa noite ele estava com a camisa cheia de cachos de
uvas, pretas, maduras, quando o frade
bravo saiu à porta dos fundos e gritou com ele, ameaçando soltar os cães que
tinha amarrados em correntes. No seu desespero, saltou para o muro e espremeu
os cachos contra ele. Por pouco não foi apanhado e, se fosse, teria sido obrigado a confessar tudo, se
desejasse ir para o Céu, onde gente
mentirosa não entrava.
Ele nos contava, bem depois disso, que uma vez um outro
frade, bem velhinho, pegou-o dentro do
terreno roubando sapotas. [1]
Para não amassar essas frutas dentro da camisa, o que faria
um desastre maior e enorme nas roupas, preferiu esconder-se atrás de um pequeno
rancho, onde eram guardadas as ferramentas da horta e pomar, tendo ficado ali
muito quieto, tremendo, esperando que o velho entrasse novamente.
O frade olhou fixamente para todo o escuro terreno e fez
menção de entrar novamente, mas acabou ficando ali mesmo por um bom tempo, em
que teria fumado pelo menos dois cigarros.
Transcorrida essa meia hora mais ou menos, aquele outro
frade bravo apareceu à porta segurando um cão por uma corrente. Ele não via Insto, mas o cão sentiu seu cheiro,
o que não devia ser muito difícil para seu faro. Até a gente sentia, quando
estava chegando o dia dele tomar banho...
O segundo frade entrou novamente sem dizer uma única
palavra e levou com ele o cão que rosnava como quem não estaria gostando do que
via, mas não latiu nenhuma vez. Cachorro desses bravos, grandes, que não latem
mas mordem.
O bom e velho frade fixou o olhar na direção do Insto
durante alguns minutos, levantou-se da cadeira e veio em sua direção, amparado
por uma vareta de guarda-chuva como se fosse uma bengala. Insto ficou imóvel, achando que não tinha
sido visto ainda, tentando se lembrar das letras das rezas que aprendera no
catecismo, mas fazendo uma mistura dos diabos: Salve Rainha...orai por nós...
perdoai os pecadores e ladrões de frutas... Pai Nosso que está no Céu... cheio das graças...Mãe de Deus...
Chegando perto dele, o bom frade disse em voz alta, cavernosa,
como se estivesse rezando ou pedindo a Deus alguma coisa:
Que as almas
do outro mundo
venham para
pegar.
As crianças
que roubam
frutas deste
pomar...
Almas de outro mundo?
Quando Insto saiu correndo para não ser apanhado pelas tais
almas, o frade rapidamente enganchou em sua cintura o cabo da bengala,
agarrando-o em seguida.
Insto teria ficado branco de susto, imóvel, e fez até
menção de devolver as sapotas, mas o frade não as aceitou. Ao invés disso,
disse-lhe com muita bondade na voz:
“Quando você vier pegar frutas no pomar, entre pelo portão da frente e só
apanhe as que estiverem maduras... Se você entrar como entrou, o cachorro pode
estar solto e machucá-lo... e aquele outro
irmão que você viu aparecer com o cachorro não gosta de gente que vem
aqui para pegar frutas... além disso,
você pode ser confundido com um ladrão...”
E soltou Insto que, rapidamente, saltou sobre o muro e,
dali, para a rua. Antes de descer do muro ele, ainda assustado, teria olhado
para trás mas não tinha visto mais o frade. No lugar onde se encontrava havia
apenas um rolo de fumaça iluminada que permanecia estático onde ele fora
apanhado.
Nós ouvimos essa aventura nem sei quantas vezes e, verdadeira ou não, Insto não queria mais
ir até lá para roubar frutas, e por alguma razão chegava a discutir com quem
pensasse em fazer isso. A figura do velho frade nos parecia simpática, pois ao
invés de fazer como o outro, que provavelmente iria prender e torturar Insto
para confessar o roubo, praticamente não tinha ligado para ele e até o havia
convidado para ir buscar mais.
Certa noite Insto se cansou de ficar inativo, e nos
convidou a todos para que fôssemos até o pomar. Só Gêra não foi, pois sua Mãe
surgia freqüentemente à porta da casa para saber onde ele estava.
Foi a maior aventura que havíamos tido até então.
Era por volta das vinte horas quando chegamos ao lado do
pomar. Subiram ao muro: Insto, Tinho e Didi. Os demais ficaram na rua, pois não
tinham altura para a escalada.
Os três permaneceram sobre o muro alguns minutos olhando
para dentro do terreno para tentar ver se o cachorro ou os frades estavam ali
escondidos, mas não os vendo saltaram dentro terreno no mais absoluto silêncio.
Falavam baixinho, mas creio que nem tanto porque nós podíamos ouvir os
cochichos desde a rua.
- Cuidado... lá vem o
frade... escondam-se..
Era a voz do Tinho. Seguiu-me um silêncio sepulcral durante
alguns minutos, para desespero dos que se encontravam na rua.
- Há há! Peguei-os... O que vocês
estão fazendo aqui, seus ladrões?
Digam,... o que estão fazendo aqui dentro? Digam... digam...
Era o frade bravo, provavelmente com um dos garotos agarrado, pois se estivessem soltos
saltariam por sobre o muro rapidamente.
Pelo jeito não estava com seu cachorro. Quem respondeu ao frade com uma
desculpa esfarrapada foi Insto:
- viemos mijar...
- mijar uma merda...!
- só mijar, seu frade...juro!
- não jure em falso, moleque, que é
pecado! O que vocês estão escondendo aí?
- algumas mangas que estavam no
chão...
No lado de fora do muro todos os menores começaram a
chorar, mas pelo menos no meu caso são era pelo aperto em que se encontravam:
eu achava que seriam presos, torturados para que confessassem e não saberíamos
como voltar para casa.
Ouvimos vozes de
outros frades chegando.
- deixa que eles se vão... são apenas
crianças que queriam algumas mangas... esclareceu uma voz grave, cavernosa, como se fosse de gente muito velha.
Devem ter sido levados para dentro do mosteiro, pois as
vozes foram sumindo e desapareceram por
completo quando uma porta se fechou.
Nosso desespero ali na rua provavelmente era maior que o
dos garotos presos.
Passados cerca de dez minutos um frade velho, com uma
bengala, virou a esquina e veio em nossa direção. Era aquela alma que Insto já havia topado antes. Ficamos todos
paralisados, e o irmão do Ico chegou a
urinar na calça de tanto medo.
- venham comigo... seus amigos estão
aqui dentro... venham buscar frutas...
- nós não queremos... nem gostamos de
frutas...
- então venham mijar... disse o velho frade de voz
cavernosa ao ver um dos meninos todo molhado de urina.
Por alguma razão não ficamos com medo desse homem, que não
nos pareceu nenhuma alma. Nós o seguimos até a entrada do mosteiro e entramos.
Ali dentro encontramos os três heróis sentados num banco,
quietos, sem falar nada, e nos juntamos a eles.
Passados alguns minutos o velho frade ressurgiu na sala,
com um saquinho de papel pardo cheio de mangas e o entregou ao Insto, que
visivelmente era seu preferido.
- tomem... levem estas mangas para
casa, e quando quiserem mais venham pela porta da frente pedi-las, mas não saltem mais o muro para
roubar e nem para mijar... e venham durante o dia, quando será mais fácil pegar
as frutas maduras...
Nós ficamos ali bom tempo, ouvindo o velho e bondoso frade
nos falando sobre o pecado, textos da Bíblia que condenavam o roubo e a
mentira, e coisas assim.
Passado esse tempo, ele nos mandou para casa, sem que nos
fizesse nenhuma tortura para que confessássemos qualquer coisa.
Todos nós beijamos, ainda um tanto ressabiados, a mão do
velho, que ainda nos deu alguns cartões com imagens de santos, e retornamos
para nosso mundo, onde saboreamos as
frutas, creio que duas ou três cada um de nós.
Não voltaríamos mais ao pomar dos frades, pelo menos à
noite.
Quando, transcorridos dois ou três meses Didi ressurgiu em
nosso grupo e veio com a sugestão de
irmos até o pomar para aproveitar a época dos jambos, ninguém aceitou
seu convite. Havia como que surgido um consenso entre todos nós que roubar
frutas naquele pomar era coisa que não devíamos fazer.
Naqueles dias todos nós fomos ver um presépio animado que
estava montado na rua da Boa Morte, perto da Igreja das Madres e, ao sair dali,
fomos até o mosteiro para ver se o velho frade cumpriria sua promessa de nos
dar frutas.
Quem nos atendeu, contudo, foi o frade bravo.
- o que vocês estão querendo novamente
aqui?
- queremos falar com o frade velho.
- porque querem falar com ele?
- ele disse que quando quiséssemos
frutas para que viéssemos durante o dia pedir-lhe, ao invés de durante a noite
para roubar...
O frade ia responder qualquer coisa, mas nada disse. Mandou
que esperássemos ali e retornou com um saquinho pardo cheio de jambos maduros.
- e o velho frade,
ele não está? - perguntou Insto
apenas para revê-lo, pois ele passou a gostar muito dessa pessoa.
- Não... -
respondeu secamente o frade bravo, acrescentando em seguida com voz mais doce: ele morreu...
Quando íamos saindo o frade bravo nos disse:
- quando quiserem frutas venham
durante o dia e façam como hoje... eu as darei para vocês...
Nós voltamos para casa sem trocar entre nós uma única
palavra. Não me lembro de ter voltado ao pomar, nem de dia e nem à noite. Creio
que o velho frade, falando com bondade, mudou muito em nós todos, inclusive no
frade bravo...
Eu ainda guardo o meu santinho junto com as demais
lembranças que fizeram parte da minha vida e tiveram algum significado para
mim.
-O0O-
[1] Para quem não conhece, estas frutas são do tamanho de maçãs, pretas, com a cor e consistência da graxa que podia ser vista nas rodas das carroças (nota do Editor)