Document Conversion Macros  

IZABEROÍNA

Seu nome real era Isabel Heroína, mas nós a chamávamos de Izaberoína, sem pensar na alteração que estávamos fazendo. Aliás, nem sabíamos quem era a tal Isabel Heroína. O nome tinha sido dado a ela por ter nascido num 13 de maio, em homenagem à Princesa Isabel, mas disso ficamos sabendo bem depois. Nem Insto sabia ao certo como a irmã se chamava de fato, e para ele seu nome era mesmo Izaberoína.

Pretinha bem apanhada, carnes firmes, lembro-me agora que de corpo bastante escultural. Chegaria a ser bonita se não fossem os cabelos em carapinhas e o nariz um tanto achatado. Seus dentes eram extremamente alvos, grandes, quase que saltando fora da boca quando sorria, e como ela estava sempre sorrindo, foi essa a imagem que dela guardei. Nós ficávamos imaginando como viraria uma caveira de meter medo quando morresse.

Sua idade devia estar por volta dos dezesseis anos, pois então eu tinha cinco e ela era bem mais velha, já mocinha, com namorado e tudo.

Izaberoína pouco saía de casa e raramente estava perto do nosso grupo, geralmente apenas para vir buscar Insto quando não estava atendendo aos chamados da Mãe.

Nos momentos em que aparecia por ali todos tínhamos uma sensação gostosa, indefinida, quando a alça da sua blusa caía para o braço e podíamos observar suas tetas, bem maiores que as das garotas chatas que tinham nossas idades. Não era malícia, mas pura curiosidade.

Izaberoína namorava um negrão alto, forte como touro, que tinha andar singular: ele gingava o corpo como quem estivesse ouvindo um batuque que só ele ouvia. Era um preto bonito, cabelos alisados com ferro quente e colados na cabeça com babosa ou outro grude qualquer. Dentes tão alvos e perfeitos quanto os da namorada. Estranhava-nos o fato dos seus olhos serem verdes, e achávamos engraçado estar sempre com sapatos brancos, de bicos finos. Sempre que o vimos estava bem vestido, embora com simplicidade.

Nossos pais diziam que ele era lombeador de sacos de açúcar na E.F. Sorocabana, mas ninguém podia confirmar isso. Nem Insto, que o adorava, pois sempre que vinha se encontrar com sua irmã trazia-lhe torrões de açúcar preto, daqueles úmidos que pareciam rapaduras, que então distribuía a todos nós. E vinha sempre, duas ou três vezes por semana, fora os sábados e domingos. Saiam de casa com as mãos dadas por volta das 19 horas e, antes das 22 estavam de volta, despedindo-se no portão da casa com um rápido beijo na boca. Era coisa nojenta, pois todos na família de Insto comiam içás, e sabíamos que estas comiam defuntos, e que de vez em quando faziam revoadas por ali, vindas do bosque do cemitério.

Numa das noites Dito chegou numa estica de chamar a atenção. Creio que foi a primeira vez que entrou na casa. Alguns minutos depois ele saiu correndo como doido, com o pai de Izaberoína atrás dele com a cinta na mão, gritando: negro safado, vagabundo,... Não soubemos nunca a razão disso, mas o fato é que o sujeito conseguiu se safar dobrando a esquina com velocidade incrível, como se caveiras estivessem em seu encalço.

Alguns instantes depois Insto foi chamado pela mãe e deixou o grupo, de sorte que pudemos falar do assunto sem correr o risco de levar umas bordoadas dele. Quem solucionou o caso foram Didi e Tinho.

Eles haviam seguido por várias vezes o casal nas suas escapadas noturnas. Iam diretamente para o terreno do Pedro Rico, bem onde hoje é a Cidade Jardim, e se embrenhavam no canavial ali existente. Os dois ficavam só ouvindo, pois não dava para ver nada.

    • Gostosa... gostosa...

    • Vá devagar... dói... é uma perna de mesa... Ai...

Nós não sabíamos por qual razão precisavam ir ao terreno escuro para saber que gosto tinha Izaberoína. Todos já havíamos lambido os próprios braços e sabíamos que eram invariavelmente salgados. Contudo, chegamos a pensar que os pretos tinham gosto de chocolate e até ficamos com inveja do Insto. Ninguém pediu para lamber os braços dele, pois isso nos dava asco. Por outro lado, Dito não nos parecia nenhuma perna de mesa. Tudo nos parecia muito confuso e misterioso.

Quando Didi inadvertidamente disse diante do Insto que sua irmã era gostosa e que iria se casar com uma perna de mesa, levou uma surra monumental, rolando ambos pelo chão durante bom tempo. Nem Insto soube dizer os motivos da sua agressão. Didi abandonou a luta depois que suas roupas ficaram rasgadas e um dos olhos um tanto arroxeados.

Passados uns dias Insto veio nos dizer que Izaberoína ia se casar. Adoramos a notícia, pois pudemos antever doces e refrigerantes grátis, sem falar nos torrões de açúcar preto.

No dia do casamento estavam todos da casa vestidos na maior estica, inclusive Insto, com seu terno de brim branco, calças já pela canela e paletó não mais abotoando, chinelos de corda, já embigodados, que a gente chamava de "enxuga-poças".

O casal era o centro das atenções, com todos querendo abraçá-los. Até Didi foi ao casamento.

No quintal da casa estava o pai da noiva com mais uns amigos fazendo um pagode, circulando entre eles, de mãos em mãos, uma garrafa de cachaça e jarras de chope que eram tiradas de um enorme barril. Até que cantavam bem, especialmente o pai da noiva, que tinha vozeirão bonito, suave. Foi uma das únicas vezes que pudemos ver o pai do Insto rindo e sem estar com a cinta nas mãos para bater em alguém.

Depois do casamento o casal saiu num carro de praça e tomou um ônibus para Águas de São Pedro, onde teriam ficado apenas uma noite, retornando no dia seguinte em tempo de participar da festa que se prolongara noite a dentro e só terminaria no Domingo à tarde, com uma porção de gente embriagada.

Nunca vimos Izaberoína tão feliz e radiante como naquele dia, em seu vestido de noiva, que minha mãe costurou para ela, inteiro-até-os-pés de rendas brancas, com pequenas pérolas formando desenhos de folhas e flores. Sua mãe não se cansava de dizer que ela se parecia com uma rainha, embora me parecesse muito barriguda para ser uma.

Transcorridos mais ou menos quatro meses após o casamento Insto veio nos dizer que tinha ficado Tio. Morremos de inveja, pois os tios sempre foram muito especiais em nossas estórias. Os casos de assombrações que os tios e avós contavam sempre traziam as marcas da verdade, e a partir daquele momento Insto é que seria citado pelo seu sobrinho quando passasse a freqüentar nosso grupo. Ser tio era uma posição de destaque para nós.

Quando, passados uns tempos, Didi veio nos dizer que estava namorando uma das garotas do bairro, Tinho com ares doutorais lhe perguntou:

"Você já lambeu ela para saber que gosto tem?"

Foi outra monumental briga, com Didi finalmente levando a melhor e Tinho fugindo para dentro de casa. Didi estava furioso com a pergunta, e nem mesmo quando o Zorro apareceu por ali depois da fuga de Tinho ele se amedrontou: correu atrás do herói mascarado, mas nunca soubemos se conseguiu ou não alcançá-lo.

Nós não sabíamos os motivos dessas brigas e confusões todas. Tudo estava no sabor que as pessoas podiam ter, e isso já sabíamos. As pessoas brancas eram salgadas e as pretas tinham sabor de chocolate...

O sobrinho de Insto faleceu em seguida, com alguns meses de idade, e o casal se mudou definitivamente da casa dos pais dele e nunca mais os vimos.

RETURN AO INDEX

Visitantes desde 01/01/2001

 

ENTRE EM NOSSO FORUM CLICANDO LOGO ABAIXO.

Forum