O POODLE DA MADAME
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CONTANDO CASOS...
(seleção da algumas
das crônicas já publicadas, do livro "Contando Casos...", do
Prof. Wladir, MM.)
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O
POODLE DA MADAME
Quando eu comecei
a namorar temia, como um perseguido pelo azar, cometer disparates perante as
garotas. Quando isso ocorria, eu ficava vermelho como um pimentão maduro, a
sensação de ter pernas sumia por completo, o pensamento não concatenava mais,
a voz não saía e, não fosse a emenda pior que o soneto, sairia correndo.
Era
assim quando ia tirar alguma moça para dançar: bastava ela dizer que não
queria fazê-lo para o baile terminar para mim e sentir-me inseguro para outro
convite. Creio que boa parte disso se devia ao fato de eu ser muito tímido,
extremamente pacífico e retraído, mas outra grande parte provavelmente estava
nos meus amigos, sempre dispostos a fazer as maiores gozações quando isso
acontecia. Quando um dia eu perguntei a uma garota, a conselho de um amigo mais
velho e com grandes experiências na vida, se ela era solteira ou casada, dei um
tremendo fora. A moça sentiu-se muito ofendida com isso e, pelo que comentou
com outras garotas que vieram me contar, a pergunta sugeria que eu estava
habituado a sair com mulheres casadas, além de que também pressupunha que ela
fosse leviana. Não tentei nem ao menos explicar: abandonei o campo de luta que
havia montado pacientemente durante mais de dois meses e nunca mais retornei, não
obstante ela me mandasse alguns recados de que não havia entendido direito
minha preocupação, etc. Valeu-me mais a bronca que o pedido de reconciliação.
Agora eu estava tentando conquistar
uma moça muito fina, cujo futuro a levaria sem dúvida para salões de música
erudita pois tocava magnificamente bem o piano de cauda que tinham em casa, sob
os olhares complacentes dos pais. Gente muito rica, educada, fina, vindos de
Recife para fixar residência em Piracicaba, onde o pai era Fiscal Federal,
terror das indústrias da região que teimavam em sonegar impostos.
Eu
só não gostava mesmo era do nome da moça, pois ele sugeriria aos meus implacáveis
amigos uma série de gozações: Clarabela. Nome de vaca e, com ele, arrastaria
uma série enorme de piadas que não estaria disposto a agüentar da turma.
Contudo, eu sabia também que eles estariam morrendo de inveja de mim quando me
vissem ao seu lado ou sendo por ela e seus familiares tratado de forma muito
especial.
Não
era apenas eu que estava começando a gostar dela e nem apenas ela gostando de
mim: seus pais revelavam estar dispostos a ter especial carinho pelo primeiro
namorado da filha única, e desde o
início do nosso namoro haviam colhido informações a meu respeito, visto as
fotos que havíamos trocado e, segundo ela me contou, desejavam conhecer-me
pessoalmente. Eu era, nos últimos dias, o assunto central da casa. Nosso namoro
já ia indo para a terceira semana, ainda meio cheio de mistérios e descobertas
sobre gostos, interesses, etc. Mas, conhecer os pais era coisa que não estava
em meus planos, pelo menos por enquanto. Não era por nada não, mas nos Anos
Dourados quando um rapaz conhecia os pais de uma moça e ia em sua casa estava
declarando um compromisso formal e sólido que eu não tinha como manter. Estava
na primeira série do curso Científico e por certo teria pela frente muitas
coisas relativas à profissão, por essa época voltada para o desejo arraigado
de me tornar um Oficial Engenheiro da Marinha de Guerra do Brasil. Só depois
desse curso feito é que poderia pensar em algo mais sério e estável.
Clarabela
insistia: - "Meus pais querem que você vá lá em
casa no Domingo almoçar com a gente... eles gostaram muito de você e o acharam
um moço muito bonito... meus pais são rigorosos com rapazes que tentam me
namorar, mas no seu caso eles estão deixando, mas querem conhecê-lo...
etc."
Não
tinha como fugir. Durante a semana toda a moça insistiu nisso e eu já estava até pensando em desmanchar o
namoro por achar que ele não daria certo. O que eu procurava era uma espécie
de passatempo romântico, e não uma futura esposa, embora ela até que faria um
bom papel nisso.
Numa
noite da semana nós nos encontramos no cine Politheama para um filme qualquer,
apenas para que estivéssemos juntos. Braços dados, aguardávamos o início da
sessão quando Clarabela disse com ar de susto: "meus pais..."
O
casal viu-nos de longe, acenaram para nós e se postaram algumas cadeiras atrás,
impedindo desta forma que eu me sentisse disposto a colocar a mão sobre o ombro
da namorada ou encostasse o rosto no dela. Nem me lembro qual era o filme, mas
apenas da horrível sensação de estarmos sendo observados o tempo todo.
Quando
o espetáculo terminou, nós deixamos propositadamente que todas as pessoas saíssem
antes de nós, mas os pais de Clarabela também fizeram isso, para que, ao
passarmos por eles, pudessem ter contato inicial e pessoal comigo. Fomos assim
apresentados, e enquanto saíamos todos do cinema o Pai da moça nos convidou
para que fôssemos ao Restaurante “A Bahiana”, aquele quase na esquina da
Rua São José com a Praça José Bonifácio, já secular e especializado em
peixes, para jantarmos. Não tive como fugir, nessa espécie de concretização
do adágio: “ Se Maomé não vai à montanha, a montanha vem a Maomé...”
Para
susto meu os pais de Clarabela não tocaram em nada que pudesse comprometer-me.
Apenas conversamos, eles contando coisas da família, ouvindo atentamente o que
eu mesmo dizia e, o mais perto das minhas preocupações, chegando no interesse
deles querendo saber o que estavam em meus planos profissionais para o futuro.
Gente finíssima. O casal, podia-se ver claramente, estava encantado com o
primeiro namorado da filha, que cercavam com arames farpados para impedir
predadores, mas deixando uma porteira para que só eu pudesse penetrar. Não poderia ser diferente: a moça era
inocente de todo, bonita, rica... muito mais rica que bonita e, por esse motivo,
deveria estar nos planos de muitos rapazes aventureiros que tinham que ser
evitados.
Ao
terminarmos o jantar estávamos já numa bem aconchegante amizade. Até a Mãe,
que Clarabela sempre me descrevera como muito severa e cheia de manias de
honorabilidade que os ricos sempre tiveram, verdadeira Madame, olhava-me com
expressões de simpatia, risonha, desejando ler em meus olhos o que se
encontrava dentro de mim como intenções, bebendo literalmente minha palavras
com ares de quem estariam orgulhosos da escolha da filha.
-Eu
o convido para que vá no Domingo próximo em casa e possamos almoçar juntos...
Não
tinha como fugir e, afinal de contas, um almoço nada poderia representar de
compromisso. Além do mais o aspecto de bichos-papão dos pais de Clarabela já
tinha desaparecido por completo.
No
Domingo, por volta das onze horas, eu compareci à casa. Fui de taxi, pois
estava chovendo e eu me recusava a andar com um guarda-chuva, que sempre me
parecia uma coisa muito deselegante. Quando
fui apertar a campainha a porta se abriu no mesmo instante e uma senhora alta,
mulata, uniformizada, atendeu-me mandando que entrasse. Pegou minha capa e
levou-me para a Biblioteca, onde pediu-me que me sentasse enquanto iria dar a
notícia da minha presença.
Lembro-me
de como fiquei espantado com o ambiente, cercado de enormes prateleiras envidraçadas,
onde estariam alguns milhares de livros, todos finamente encadernados e, nas
paredes não cobertas por elas, quadros a óleo muito bem emoldurados. Nunca
havia visto uma biblioteca como aquela. Ao canto um enorme piano de cauda, já
com a tampa erguida, como se estivesse pronto para ser utilizado.
Incômoda
mesmo era a poltrona onde me sentara. Tinha uma saliência que, embora pequena,
causava-me algum desconforto. Eu ia mudar de poltrona quando Clarabela surgiu à
porta e veio correndo em minha direção, seguida dos Pais que estavam
visivelmente alegres pela minha presença.
-
O
Sr. tomaria uma dose de Wiskye?
-
Não...
obrigado, mas não bebo nada com álcool.
Parecia-me
que tudo que eu dizia servia para mais encantar à dona da casa. Eu estava como
que acumulando virtudes para me transformar no futuro genro, e o fato de não
tomar nada com álcool parecia ser uma dessas virtudes.
Depois que a Mãe instou Clarabela para
mostrar-nos como era boa como pianista, minha namorada, a princípio relutante e
negando sem muita convicção, acabou indo ao piano e executou-nos uma série de
composições de Mozart, todas de memória, ante os olhares felizes e aplausos
da seleta assistência. Teria futuro garantido como pianista, sem dúvida
alguma.
Em determinado momento a Mãe da moça
pediu-nos licença para ir em busca de um cãozinho que achava muito
interessante para me mostrar. Pouco depois chamou o marido para ajudá-la nessa
aparentemente difícil tarefa e, por último, também Clarabela. Foi quando me
aproveitei do fato de estar sozinho novamente e tentar solucionar o incômodo da
poltrona.
Barbaridade! Eu havia me sentado
exatamente sobre um filhote de mini-poodle da dona da casa, menor que um punho
fechado, e agora estava ali com ele nas mãos, amassado como uma folha de papel
naquele vestidinho cheio de rendas. O bicho estava literalmente quebrado ao
meio, olhos quase que saindo das órbitas, e pela boca saía um filete de sangue
que manchou o veludo da poltrona e minha roupa. Sem querer explicar coisa alguma
a ninguém, atirei o corpo do animal pela janela que dava para uma imensa área
gramada ao lado da piscina e saí pé ante pé da Biblioteca. Apanhei
rapidamente minha capa que estava numa armação perto da porta e saí o mais
depressa possível dali. Por sorte um taxi estava passando e tomei-o.
Não
voltei a me encontrar com Clarabela e só notei a minha segunda gafe alguns dias
depois, quando precisei usar novamente a capa e percebi que não era a minha.
Nem tentei reaver a minha e devolver a do meu anfitrião, como não tentei rever
Clarabela e nem ela a mim.
Até
hoje não consigo imaginar, sem rir, o que se passou pela cabeça de todos
quando deram com a mancha de sangue na poltrona, notaram minha fuga misteriosa
depois do desaparecimento também misterioso do filhote, o encontro do corpo
amassado do cãozinho ao lado da piscina e o roubo da capa do pai de Clarabela.
Boas
coisas não foram, tanto que nunca me perguntaram