Sábados eram sagrados para nós, os boêmios, que passávamos a madrugada nas ruas cantando os sucessos da época, marcados sobretudo por cancioneiros mexicanos. Contudo, existiam alguns brasileiros que também povoavam nossas inspirações e nos serviam de modelos. Chico Alves, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Nora Ney, Vicente Celestino e outros, mas os bons mesmo em nosso repertório teriam que ser encontrados em Lucho Gatica, Gregorio Barrios, Pedro Vargas e alguns outros de que não importa falar aqui.
Cada um de nós tinha seus preferidos. Eu gostava de Lucho Gatica e Gegorio Barrios, de todos os brasileiros em geral que cantavam músicas românticas e, entre as mulheres, tinha especial queda por Nora Ney. Não era tanto pelas suas músicas, mas pela sensualidade do timbre da sua voz, um tanto grave e dorida, que conseguia tocar fundo no coração dos que se apaixonavam facilmente como nós.
Em nossa turma de cantores havia gente que se revelou depois dentro do cenário musical brasileiro: Waldemar Rocha, que gravou pela TV Tupi com o nome de Ronaldo Rocha tinha voz belíssima, que em nada devia à de Lucho Gatica, embora nunca tivesse desejado imitá-lo; Rubens Petrocelli, que imitava o timbre de Nelson Gonçalves e, até sua morte, começava sempre suas apresentações com A Volta do Boêmio; Pedro Alexandrino, também recentemente falecido, cujas gravações em disco não se podia distinguir pelo som das gravações do Rei da Voz de então, o saudoso Chico Alves; Tito, que conseguia a façanha de repetir no mesmo tom as gravações de Catulo da Paixão Cearense; Ozien e Canhoto, que tocavam cavaquinho e violão respectivamente, dando verdadeiros shows de habilidade ao colocar os instrumentos nas costas para executar as músicas dos seus repertórios, em espetáculo digno de ser visto pela televisão...
Mas, eu dizia que os sábados eram feitos para as serenatas, e me permito dar aos leitores de agora uma breve descrição do ambiente em que elas transcorriam.
Serenatas eram feitas para moças bonitas, mesmo que desconhecidas. A gente ficava a semana inteira para descobrir onde uma morava, inclusive acompanhando-a discretamente e ao longe, para no sábado entrarmos nos jardins da casa e ali fazermos nossa cantoria. Era coisa organizada, nada de drogas ou bebidas, apenas inspiração natural pela beleza de uma moça. Quem estivesse etilizado, mesmo que pouco, não poderia participar. Outra coisa que é necessário dizer aqui é que, mesmo nunca tendo encontrado conosco, os pais das moças geralmente nos recebiam após algumas músicas, quando fazíamos menção de ir embora. Nós entrávamos, tomávamos o que nos ofereciam, comíamos lanches e, no mais das vezes, a homenageada era acordada e vinha ter conosco na sala onde nos agradecia pelo mimo e para a qual cantávamos ainda mais alguma músicas. Bonito!
Numa quinta feira eu vi uma moça muito bonita passando pela Rua Governador Pedro de Toledo. Linda mesmo! Alta, andar calmo, corpo escultural, olhos verdes que contrastavam com os cabelos negros, lábios carnosos e vermelhos, sorriso natural como expressão de rosto, com seus quinze ou dezesseis anos de idade. Nunca a tinha visto antes, nem no footing e nem nos cinemas. Provavelmente nem era de Piracicaba e ali se encontrava passando alguns dias de férias, como era muito comum ocorrer nesses tempos. O fato é que essa figura esbelta não mais sumiu da minha mente, coração e retina durante a semana toda. Eu saía à tarde e ia me postar na mesma rua e local para ver se a encontrava novamente, mas isso não aconteceu. Estava, por assim dizer, "vidrado" nela e pensando em como nós poderíamos fazer um belo casal... Contudo, ela seria com sorte vista no sábado, quando estaríamos cantando para ela. Cheguei a treinar uma série de músicas que poderiam ser o seu gênero preferido: Maria Helena, Aquellos Ojos Verdes, Anahi, Besame Mucho, Perfídia, Ay de Mi, Vereda Tropical, Nunca Jamas, Que Te Vaya Bien e outras de que agora não me recordo mais.
Nesse dia em que a vi, segui-a a razoável distância para não ser percebido e para que ela não desconfiasse das minhas intenções. A moça subiu pela Rua da Boa Morte até perto da estação da Paulista e entrou numa casa que tinha enorme jardim à frente. Guardei bem o número da casa, pois no sábado estaríamos dentro dele cantando para ela.
No sábado tive o cuidado de comprar rosas vermelhas para ela, e as entregaria pessoalmente, com o número do meu telefone gravado no cartão que as acompanhava.
Por volta de uma hora da manhã entramos no maior silêncio dentro do jardim da casa. Tudo apagado e silencioso. Pedro iria me acompanhar ao violão. Cantamos tantas músicas ali, sem que ninguém acendesse as luzes, e quase desistimos de continuar. Já estávamos saindo dos jardins quando a luz da área se acendeu dando sinal de vida, espécie de recado dos moradores para nos dizerem que estavam escutando. Voltamos a cantar mais algumas músicas, e como meu repertório havia se esgotado, Waldemar entrou com o seu, que era monumentalmente grande comparado ao que eu tinha.
Creio que ficamos ali perto de uma hora cantando, e já nos dispúnhamos a dar por encerrada a seresta quando a porta se abriu e por ela surgiu um Senhor de meia idade, provavelmente o Pai, com um ar um tanto feroz a princípio, que nos perguntou:
-"Que bagunça é essa aqui dentro da minha casa?"
Não era bagunça, mas homenagem à sua filha, feita na mais pura e tradicional maneira dos boêmios da terra, onde eu surgi com o "comando" da mesma. Tive que explicar para o cidadão, que provavelmente também era novo na cidade e desconhecia nossas tradições:
- "Nós não somos bagunceiros, Meu Senhor... apenas seresteiros que alegram as madrugadas dos domingos... fazemos nossas serenatas em forma de homenagem à beleza, graça e simpatia de moças que por alguma coisa admiramos... sua filha foi uma das escolhidas, com todo o respeito, e cá estamos cantando para ela a nossa alegria por saber que ela existe e não é um sonho que nos passou pela cabeça... eu vi sua filha na rua, achei-a a pessoa mais bela que já vi antes e a segui até a casa, para que hoje pudéssemos estar aqui cantando sua beleza...". E fui por aí, com o homem cada vez mais tornando o rosto mais amigável, até que em determinado momento nos convidou para que entrássemos para tomar cerveja com a família, que estaria inteira acordada com o acontecimento.
Abertas algumas garrafas que tomamos mais por educação pois nenhum de nós bebia qualquer coisa, ele puxou conversa comigo especialmente:
- "Com que então você se encantou com a minha filha e veio lhe fazer esta serenata? ... Muito bem... gosto do romantismo disso... e espero que tenha boas intenções com ela..." e passou a nos contar que, em sua cidade natal onde havia passado a juventude, não existia esse tipo de coisas, pelo que deveríamos desculpá-lo pelo contato inicial. Em seguida o cidadão começou a me perguntar coisas mais sérias, visivelmente interessado em me "prender" ali para que a filha finalmente pudesse vir em nosso encontro, pois estava se preparando para isso. Eu estava gostando do papo do sujeito, que praticamente colocava sua linda filha ao meu alcance para alguma coisa mais compromissada. Eu estava tão feliz e sob os efeitos dos dois ou três copos de cerveja, que teria insinuado ao Pai que "gostaria de namorar a moça, caso ela assim o desejasse e ele permitisse". Fazia um papel ridículo falando isso com um buquê de rosas vermelhas nas mãos, segundo os amigos me disseram depois. Contudo, naquela hora eu estava disposto a fazer tudo o que pudesse para conhecer a moça e cantar para ela novamente.
Passado algum tempo, creio que uns vinte ou trinta minutos, o cidadão deixou-nos na sala e foi em busca da filha. Meu coração parecia querer explodir dentro do peito, tamanha a minha felicidade.
Pouco depois ele retorna com a filha: uma moça extremamente feia, dentuça, cabelos escorridos, magrela como cão de rua, nariz adunco, orelhas de abano, pés desproporcionamente grandes, sem peitos formados e com voz gaiteada. Fácil imaginar meu susto, mas os amigos não precisaram imaginar: viram na minha expressão de rosto e tão desmontado eu estava que entreguei-lhe assim mesmo as flores. Eu me comportei de modo elegante, tentando apenas desconversar tudo o que havia sido dito, mas a turma não parava de rir, provavelmente do que estavam vendo em meu rosto.
O sujeito percebeu o engano e rapidamente nos colocou para fora da casa, alegando que tinham que dormir. A moça que eu havia pensado ser sua filha era sua sobrinha, que residia Rio Claro e que tinha estado na quinta-feira para fazer algumas compras na cidade.
Já havia retornado e nunca mais a vimos.
Eu tentei esquecer o episódio, mas os amigos não deixaram que isso ocorresse por uns bons tempos, e sempre que eu indicava a casa de uma moça bonita, eles se recusavam a cantar para ela.
O pior de tudo é que a moça levou a sério tanto as flores como o cartão, tendo me telefonado várias vezes como que tirando satisfações pelo meu sumiço e ensaiou algumas chegadas em casa, obrigando-me a fugir dela como o diabo foge da cruz....
Nunca contei isso para os amigos, caso contrário até hoje estariam me fazendo monumentais gozações.