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O AZAR DE UM COMUM
(do livro "Contando Casos para...")
Santos, Wladir dos. MM. Max, 2001 SP. |

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Hoje minha crônica não se refere a temas da minha infância
e juventude, como todas as outras que já publiquei, mas à atualidade.
(Fato ocorrido na década dos anos 90) |
Dizem que a situação
econômica está tão ruim, que quando o sujeito consegue o mínimo, já tem
muito, e quando é envolvido na má sorte não há o que consiga tirá-lo disso.
Verdade...verdade..., como se pode ver pelos acontecimentos que envolveram este
cidadão comum, como milhares de outros existem nestes tempos agitados e difíceis.
Outro dia topei com um amigo que
está desempregado. Engenheiro Eletricista, mas que nunca conseguiu exercer sua
profissão. Contou-me sobre seus dissabores, que começaram ao tempo em que
estava na ordem do dia os "bois magros e bois gordos" e nunca mais
pararam.
Dois anos depois de formado, ainda
sem emprego, resolveu montar um açougue. Nem bem havia aplicado suas economias
na casa de carnes, os bois misteriosamente sumiram do mercado, e quando resolveu
arriscar a vender bois abatidos ilegalmente por preços superiores, foi multado
e a casa lacrada antes que tivessem sido vendidos cinco míseros quilos de
costelas.
O açougue não deu certo. Pagou
estoicamente a pesada multa e o vendeu por uma ninharia. Nem tinha recebido a
segunda prestação e a carne
voltou.
Conseguiu finalmente emprego em Rio
Claro, e teria tido algum sucesso não fosse a falência da firma. Saiu de lá e
montou uma confecção, que também foi para o brejo quando o Brasil começou a
deixar entrar roupas feitas na Ásia. Se ele colocasse no mercado perdendo até
30% dos seus custos, as roupas estariam mais caras que as chinesas e coreanas.
Fecharam sua confecção quando
distraidamente se esquecera de pagar as duplicatas e quase que vai preso por dívidas.
Para se safar dessa humilhação, deixou com o Advogado mais da metade do que
ainda lhe restara, e ficou ainda devendo o equivalente às últimas dez prestações
do açougue.
Tinha feito uma pequena reserva de
fundos na Poupança, mas de repente lhe disseram que estava quase que zerada e
sem poder movimentá-la. Ainda por cima, tiraram três zeros do capital.
Com
o novo Código de Trânsito já
em vigor, foi surpreendido por uma avalanche de multas, tudo de uma só vez.
Aqui estava o motivo da sua angústia atual.
Conto sua odisséia: num domingo à
tarde estacionou seu fusca 64 na área do estacionamento do hospital e foi fazer
uma visita a um grande amigo, que teria sido operado de hérnia. Estava tentando
localizar o quarto do amigo naqueles enormes corredores cheios de gente sobre
macas, sentados ao chão, etc., quando o alarme disparou no momento em que um adolescente marginal quebrou o vidro
para roubar o tape. Ninguém tentou impedir, de sorte que quanto retornou após
a visita, estava sem o aparelho e ainda por cima com o vidro quebrado. Após a
visita não: o paciente já tinha tido alta no dia anterior, e nem tinha sido
operado naquele Hospital.
Já meio conformado com a situação, pois afinal não levaram o carro
todo, foi abordado por dois
policiais, que o comunicaram sobre a multa que haviam lavrado por ter disparado
o alarme. Está no Código. Inconformado, tratou de bronquear com a falta de lógica
da multa pelo alarme, que afinal de contas era feito mesmo para chamar a atenção
quando o carro fosse alvo de roubo, e um dos policiais notou que estava de
chinelos, e aí levou mais uma multa, a que se seguiu uma terceira por não ter
cinto de segurança com três pontos, nem nos bancos dianteiros e nem no
traseiro. Agora furioso, tentou dar a partida, mas o velho carro não pegava. O
policial olhou no marcador de combustível: estava zerado, e por esse motivo
levou a quarta multa por estar sem combustível, sem nem ter saído do lugar.
Também estava tudo no Código.
Os policiais se condoeram com sua
falta de sorte e até foram buscar uma porção de gasolina para que o carro
pudesse afinal sair daquele inferno. Mais que isso, os soldados gentilmente
ajudaram a empurrar o velho fusca. Quando finalmente o motor pegou, vendo-se
mais ou menos liberto da situação e potencialmente impune, desafogou um palavrão
que lhe estava na garganta para os homens da lei, sem perceber que nesse momento
passara a menos de um metro e meio de uma bicicleta que também deixava o
hospital. Levou sua quinta multa, e quando estava finalmente saindo, outro
policial entrou diante do carro com a mão erguida para lhe dizer que o motor
estava produzindo muita fumaça, pelo que teve um multa adicional. Foi a sexta
multa, tudo em menos de dez minutos. "Não vou pagar merda nenhuma... que
fiquem com o carro que não vale
tanto..." e recebeu a sétima multa do dia, por desacato à autoridade, a
oitava por estar impedindo o corredor por onde entram ambulâncias, e a nona por
obstruir a via pública com sucatas. Começou a chorar de desespero, e nesse
instante sua namorada, que o acompanhava, achou que era um cara covarde e fraco
perante a vida, dando-lhe o fora ali mesmo. Foi a pé para casa, gritando em
resposta aos seus chamados: "covarde...", "covarde...".
Ia me esquecendo de mais alguns
momentos, tão ou mais trágicos que esses, em sua vida. No mês anterior, quando o insistente e
desumano locador requereu despejo por falta de pagamentos durante oito meses,
foi postar-se sobre o viaduto da Anhangüera, esperando tomar coragem para pular
bem diante de um desses treminhões enormes e carregados que por ali trafegam em
velocidade incontrolável, sem qualquer multa.
Estava se decidindo a colocar fim em tudo, até com bilhete escrito para
a imprensa, quando avistou ao longe uma multidão de pessoas com faixas,
cartazes e bandeiras do PT, MST e PC do B que vinha vindo pelo acostamento da
estrada. Deu um tempo para si mesmo para tentar decifrar o sentido daquilo e
esperou: eram pessoas sem-terra e sem-teto, mais de quinhentas, que faziam uma
espécie de marcha triunfal para Brasília a fim de intimidar o governo visando
que os amparasse em suas invasões de terras e propriedades. Achou que era tudo
muito bem pensado e a solução final, colocada por Deus bem ao seu alcance:
ganharia um lote ou uma casa, passaria tudo nos cobres e endireitaria a vida em
pouco tempo sem esforço algum.
Não esperou duas vezes: desceu
correndo do viaduto e se dirigiu ao grupo para perguntar algumas coisas sobre a
marcha e se poderia acompanhar os passantes, mas
foi logo aclamado como quem estivesse ali esperando para engrossar o movimento.
Sentiu-se pela primeira vez um verdadeiro herói, indispensável para o sucesso
da turba, esquecendo mesmo sua trágica situação. Tratou de aderir
aproveitando a fama e foi junto, com a roupa do corpo, sem um níquel nos
bolsos.
Já havia andado mais de duzentos
quilômetros e "serrado" várias refeições dos demais, quando
notaram que não passava de um penetra, sem nenhuma politização e sem condições
para se auto-sustentar nessa aventura. Provavelmente poderia estar ali à
procura da Débora, sobre quem a revista Play Boy havia feito reportagem
naqueles dias. Em suma, um oportunista andarilho, um canalha tarado, que também
poderia estar a serviço dos proprietários e, quem sabe, até ser espião das
elites dos fazendeiros, que se infiltrara maliciosamente no grupo para conhecer
os planos de ataque.
Meteram-lhe uns cascudos nas
orelhas, deram-lhe umas chibatadas e o amarraram fortemente a uma das estacas
das barracas.
Sua agonia de verdade veio quando
alguns peões começaram a discutir em sua frente se seria melhor castrá-lo ou
matá-lo, jogando a culpa nos fazendeiros e o corpo no rio que estava logo à
frente, em represália ao fato de vir delatando sobre o que falavam e faziam.
Suspirou de alívio quando viu
chegar um carrão com um Padre e mais dois ou três homens. Para ele, Padre era sinal de paz e perdão,
mesmo que estivesse junto ao grupo de pecadores. Ele era católico praticante,
ex-coroinha, chegara a pensar em entrar para um Seminário em sua infância e,
desde longa data, tinha pela batina um enorme respeito. Contudo, até o Padre
que estava liderando o movimento acusou-o, sem mesmo ouvi-lo, de ser militar
disfarçado, que por certo estaria ali apenas para conhecer o poder de fogo dos
manifestantes, visando repetir a chacina do nordeste.
Quando o pessoal estava decidindo
entre castrar ou matar, adquiriu forças como que sobrenaturais, rompeu a corda
e conseguiu fugir da sua prisão móvel ao ouvir um sem-terra cochichando para
outro que naquela noite iriam mesmo é dar cabo dele, atirando o corpo no rio
que estaria logo à frente, ou abandonando-o no terreno de uma das fazendas próximas.
Saiu correndo do acampamento quando
o guarda de plantão estava adormecido, meio alcoolizado. Pulou sobre algumas
cercas e nem olhou na direção da turba acampada, correndo até que o dia
amanheceu.
Ficou escondido no mato esperando
que todos se fossem rumo a Brasília. Não tivera opção: "castração ou
morte" não tinha muito a ver com o heróico brado de "Independência
ou Morte".
Teve que voltar a pé, sem ter
ganho seu terreno nem sua casa, quatro dias depois, invadindo plantações de
cana para se alimentar, dormindo ao relento e sob torrencial chuva que o apanhou
no caminho. Ainda por cima, quando conseguiu pegar um frango num sítio para comer, não tinha
como assá-lo, pois aderira à campanha contra o fumo e não carregava fósforos.
Já na Anhangüera novamente, próximo
de Ribeirão, morrendo de fome e sede pelos dias passados dessa forma, parou num
posto de gasolina que estava apinhado de gente e, maltrapilho como se
encontrava, tentou conseguir alguma ajuda, mas tudo o que obteve dos bons
viajantes em férias foi ofensa: "vagabundo...
vá trabalhar...".
Nesse dia em que o encontrei, no
mesmo em que tivera nove multas em menos de dez minutos, ele estava tentando me
convencer a lhe emprestar o que chamou de "um dinheirinho" para
comprar um revólver e dar um tiro no ouvido, colocando fim rápido em sua miserável
sina.
-Eu? Emprestar dinheiro para alguém comprar um revólver e dar
fim na vida, bem à minha frente? E eu sou louco? Quem me reembolsará? Trabalhe
para comprar um...".
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