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A BATALHA FINAL |
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Nossas noites de infância eram gastas em vadiagem, dessas gostosas e
saudosas, onde ninguém falava de escolas, banhos, garotas e outras coisas
igualmente chatas. Vez por outra, tendo ido a alguma sessão de matinê, por
dias seguidos revivíamos as cenas para os outros, mesmo que também tivessem
assistido ao filme. Entretanto, isso era esporádico. Mais comum era os
folguedos girarem em torno de estórias macabras e tenebrosas com caveiras,
assombrações, mulas sem cabeça, sacis e outros seres de meter medo, com que
nossos tios e avós tinham topado, além daquelas brincadeiras típicas de
meninos, como jogar bola, balança-caixão, esconde-esconde, polícia, e outras
com que passávamos nossas lentas horas e aguardávamos a chegada da puberdade.
Todas elas, sob a luz mortiça do velho poste, único do quarteirão, mal
chegando para alumiar o chão.
-"o pessoal
da Cidade Alta desafiou a gente prá uma guerra..."
Foge-me agora à lembrança
quem veio como porta-voz dos garotos daquele bairro, situado lá para as bandas
do cemitério (cruz credo!), mas tenho uma leve impressão que falava em nome de
um tal Gerinha, pretinho encrenqueiro que morava nesse bairro, fazedor de
estrepolias, nutrindo velha rixa com o nosso Insto, iniciada não se sabia
quando e nem porque[1]. O que sabíamos é que, tendo
Gerinha nessa ocasião da desavença inicial por volta de dez ou onze anos,
Insto tinha apenas quatro ou cinco, e teria saído vencedor de uma briga em que
foi preciso outros entrarem para que se encerrasse. Depois dessa, haviam já se
enfrentado várias vezes, mas o fato é que ele sempre apanhou do nosso
pretinho, que nesse negócio de brigar era Mestre diplomado. Ele enfrentava
gente bem maior, sem medo, e geralmente levava a melhor. Uma vez conseguiu botar
para correr um garoto cuja idade e tamanho eram pelo menos o dobro da sua, tendo
se dado ao luxo de correr algumas quadras atrás do assustado opositor, que não
esperava tanta fúria e habilidade num garoto tão pequeno. O sujeito nunca mais
passou pela nossa rua, preferindo contornar a quadra a ter que se defrontar com
Insto novamente. Sua habilidade provinha de ser muito rápido com as pernas e de
um gingar que fazia diante o adversário antes de passar-lhe eficiente rasteira
que geralmente o derrubava ao chão, momento em que saltava sobre o coitado aos
murros, também rapidamente desferidos no rosto, só parando mesmo quando visse
um filete de sangue escorrendo pelo canto da boca, ou tivesse deixado sua vítima
com um olho roxo e roupas rasgadas. Nem se importava que isso lhe valesse
algumas cintadas quando os familiares do inimigo fossem reclamar da surra aos
seus pais.
Mas eu dizia do desafio: foi
prontamente aceito por nós, num ímpeto de heroísmo em que Tinho, o Zorro,
comandaria nosso exército. Insto seria melhor chefe, mas O Zorro meteria medo
nos desafiantes e os colocaria a correr tão logo o vissem à frente da nossa
turma. Afinal de contas, ter o Zorro do nosso lado era uma garantia prévia de
vitória, e ele seria mesmo o comandante-em-chefe.
Levantou solenemente a mão
direita, com a palma para baixo e todos tivemos que encostar nela o dedo
indicador e gritarmos ao mesmo tempo: "um
por todos, todos por um", exatamente como tínhamos visto na matinê de
domingo os Três Mosqueteiros fazendo antes de uma luta, só que com espadas e não
com os dedos.
Todos gritamos uníssonos as
palavras de ordem, menos Ico, que não tendo assistido ao filme e não
conhecendo a frase de solidariedade, gritou destoando de todos: "cada um por si, Deus por todos e
salve-se quem puder". Levou imediatamente uma porrada na cabeça da
parte do Tinho, para que aprendesse que a frase era outra, seguindo-se mais uma
porrada da parte do Insto. Quase que perdemos um soldado, pois Ico não queria
mais brincar, creio mais que por ter o brio ferido que por dor, já que nem
chorou.
A batalha ficou marcada para
dali a uma semana, por volta das 20:00 hs. e, como campo onde seria travada,
ficou combinado o trecho da rua José Pinto de Almeida, entre a Prudente e a São
José, onde existiam alguns casarões antigos, sempre fechados e escuros, cheios
de fantasmas e habitados apenas por vampiros, nunca se vendo neles uma única lâmpada
acesa. O local foi escolhido por ser longe das vistas das nossas mães, que não
aceitariam essas manifestações de pequenos guerreiros. Nenhum de nós morava
na Pinto de Almeida.
Passamos a semana toda fazendo
nossas armas. Meu pai era marceneiro, tinha ferramentas e madeiras, e isso
facilitou que tanto eu como meu irmão fizéssemos duas espadas com ripas, uma
menor cruzada que serviria para proteção da mão, exatamente como a de
Dartagnan. Fizemos também uma para o Zorro, a pedido do Tinho que era seu amigo
e conhecido, e que nessa época estava apaixonado por uma prima nossa,
deixando-nos ganhar bolinhas de gude e até nos dando um alçapão para caçar
passarinhos. Além das espadas, que foram sendo aperfeiçoadas durante a semana
até se apresentarem lixadas e envernizadas, também providenciamos três
escudos com nossas armas de guerra desenhadas. No meu tinha uma caveira com dois
ossos sob ela, no do Zorro tinha um "Z" ao contrário (quem desenhou
foi Tinho... nós só copiamos pois nem na escola estávamos ainda). Não me
lembro do que foi desenhado no escudo do meu irmão, mas apenas que era
diferente dos outros dois.
Tinho havia tentado furar um
sarrafo (o incrível é que conseguiu!) com um velho canivete e, pelo furo,
meteu uma barra de ferro de construção, limada nas duas pontas, que fixou com
uma bolota de cimento. Era uma clava, arma que poderia ser até mortal, pois
ficou semelhante a um machado de primitivos homens de cavernas. Morte certa, se
a ponta de ferro, dez centímetros de cada lado, fosse batida na cabeça de alguém.
Outra arma mortal que ele havia produzido foi a seguinte: na ponta de um cabo de
vassoura fez uma bolota de cimento, com tamanho de um punho fechado. Antes que
secasse, enterrou nela uma porção de pregos grandes, dando-lhe aparência de
um enorme ouriço.
Didi era o mais habilidoso e
detalhado: fez um soco inglês raspando pacientemente com cacos de vidro a casca
dura de uma purunga, mais dura que a do coco. Quatro furos, um para cada dedo e
na parte que ficaria para cima, entalhou algumas saliências e reentrâncias
como dentes de um serrote, mas com perto de um centímetro de altura. Além
disso, esculpiu vários pequenos punhais em cabos de escovas de dentes, que
seriam levados à cintura por todos. Deu-se ao trabalho de também fazer um anel
usando um coquinho que pacientemente desgastou, onde na parte de cima gravou uma
caveira em alto relevo, para marcar o rosto dos inimigos quando batesse neles.
Insto não tinha a menor intenção
de fazer qualquer arma, confiando em que bateria em meio mundo com as mãos
limpas. O que ele queria mesmo era se encontrar novamente com o Gerinha e
fez-nos prometer que o negrinho da Cidade Alta "seria
dele". E acrescentava, com ímpeto de coragem que nos enchia de entusiasmo
e confiança: "prá batê naquele pretinho eu posso amarrá as mão nas
costa..."
Tinho, O Zorro, tratava também
de fazer um chicote com tiras de couro, de um relho surrupiado na distração do
vendedor de verduras enquanto atendia nossas Mães. Depois de feito, passou vários
dias tentando fazer com que estalasse, mas pouco conseguiu nesse sentido. Quanto
ao fazer o "Z" na areia, nem pensar.
Não me lembro das demais
armas, mas apenas que era um poderoso arsenal, que deveria meter pavor no
exercito desafiante.
Quando Ico revelou que levaria
seu estilingue (em suas mãos era arma mortífera, pois ele conseguia apanhar
frutas acertando apenas nos pedúnculos que as ligavam aos pés), veio a notícia
de uma regra para a batalha: estilingue não pode! Ficou furioso com isso,
mas... regra era regra e tinha que ser respeitada.
Nós chegamos a pensar que
entre nós tinha algum espião[2], pois a tudo o que inventávamos
imediatamente surgia uma regra: "Não
pode usar". Foi assim com o soco inglês, a maça com ferro de construção
e o ouriço de pregos, os estilingues, as lanças com pontas afiadas e tudo o
mais que pudesse representar perigo de machucados graves. Em
resumo, os bandidões da Cidade Alta queriam mesmo era resolver as desavenças
no tapa. Ainda bem que fomos cordatos com essas regras feitas em boa hora, pois
caso contrário muita gente iria ficar ferida com seriedade.
O dia da batalha finalmente
chegou. Nós estávamos em sete ou oito, com idades variando entre cinco e dez
anos (Tinho não deixou que Waldemar entrasse na briga por ser muito criança em
seus três anos e por usar inseparável chupeta da qual não queria abrir mãos),
menos o nosso comandante que tinha onze e Didi que estava com treze. Gera e eu tínhamos
cinco, meu irmão e Insto sete, Ico e João colchoeiro eu creio que nove ou
perto disso.
Na noite azada nos encontramos
sob nosso poste, armados até os dentes, para traçar os planos da batalha. Quem
iria à frente era Tinho, o Zorro, já em seu disfarce com a calça cor de rosa
da sua Mãe, o chapéu do Pai que lhe caía sobre as orelhas e, como capa, uma
anágua também rosa, de cetim, da Mãe. Nos olhos, uma pequena máscara para não
ser reconhecido. Iria à frente para meter medo nos bandidos. No final do pelotão
iria o Didi, com um sarrafo nas mãos, pronto para castigar quem covardemente
abandonasse a luta para fugir. E acrescentava, olhando diretamente para Ico:
-quem pensar que
a briga vai virar "cada um por si e Deus por todos" ou ainda pensar
que "salve-se quem puder", vai levar porrada minha...
Conforme nos explicara e
convencera, ele mesmo não iria lutar, mas apenas ficar na retaguarda, como uma
espécie de reserva e fiscal do exército.
Fizemos novamente o juramento
solene e agora Ico fez certo, e nos dirigimos ao local combinado. Tinho, O
Zorro, trotava seu cavalo imaginário, gritando a todo instante "eia, eia Silver... tã...tã...tã...tã...".
Enquanto aguardávamos os
bandidos, ficamos treinando esgrima e Zorro passava rente a nós no trote,
olhando para sua capa esvoaçante. Nem sei quanto tempo ficamos ali esperando,
mas creio que não mais de vinte minutos.
Por certo estávamos sendo
espionados há algum tempo, pois o exército inimigo não foi chegando de
mansinho: ele virou a esquina correndo em nossa direção, uns cinqüenta ou
sessenta moleques, de idades por volta dos quinze ou mais anos, como um bloco só,
berrando como malucos, brandindo paus do porte de vigotas, atirando pedras com
estilingues sobre nós, fazendo girar no ar cabos de aço, arremessando pedaços
de tijolos... aquilo não era um exército: era uma boiada.
Nós teríamos que enfrentar,
cada um de nós, cerca de cinco ou seis marmanjos. O cavalo do Zorro empacou de
susto e não saiu do lugar, antecipando mentalmente o massacre que iria
acontecer. Nem deu tempo de correr: os renegados caíram sobre nós aos tapas,
pauladas e cintadas, e o primeiro a fugir do nosso grupo foi o Didi, antes mesmo
que os bandidos chegassem até nós, logo que viraram a esquina. Largou seu
sarrafo e correu, mas foi alcançado bem à porta da sua casa onde foi se
homiziar, por um grupo de índios que lhe deram uma paulada na cabeça deixando
um galo enorme e preto.
Insto lutou valentemente,
contra cinco ou seis, um dos quais o Gerinha, e colocou-os por várias vezes ao
chão com suas rasteiras, mas acabou sendo dominado e levou uns tapas nas
orelhas. Lembro-me que, já agarrado, levando um tapa estalado, disse: "ui...
isso dói..."
Minha espada quebrou-se de
cara, quando um renegado deu uma vigotada nela, o mesmo acontecendo com a do meu
irmão. Tinho, O Zorro, abandonou o seu cavalo ali e saiu correndo como quem
estivesse sendo perseguido por uma caveira, berrando por misericórdia e pedindo
socorro, e também foi perseguido até o portão da sua casa, onde no desespero
se confundiu todo com o trinco e não escapou de algumas cintadas e pauladas nas
costas. Seu chapéu foi levado como botim de guerra, o que lhe valeu depois uma
surra do Pai.
Batalha? Nem houve... durou
alguns segundos apenas. Os vencedores fizeram prisioneiros, sendo Insto e eu
levados presos. Falando assim parece coisa simples, profissional, mas na verdade
fomos arrastados, seis ou sete segurando cada um de nós pelos braços e pernas,
berrando e chorando como malucos, com medo de que nos transformassem em couro de
tamborins, como fazíamos com os gatos. Eu fui solto no Largo da Santa Cruz,
quando um velho interveio repreendendo os vândalos, que concordaram em me
soltar mas não ao Insto. Ele foi levado até a Cidade Alta e, a julgar pelo que
estavam dizendo entre si, iriam jogá-lo dentro do cemitério quando desse
meia-noite (cruz credo, escapei de boa!). Contudo, isso não assustava ao Insto,
pois havia entrado ali por várias vezes e até teria conseguido fugir de
algumas caveiras chutando-lhes o saco.
Ficou preso, amarrado, amordaçado
e com venda nos olhos, até que os bandidos o lançaram por sobre o muro, bem
antes da hora marcada. Ele caiu sobre uma lata, fez um corte na perna mas saiu
correndo até o outro lado, escalou o muro e veio embora, depois de observar que
todos os bandidos estavam em silêncio do lado de fora, espiando para ver onde
ele estava e tentando ouvir seu choro.
Nossa guerra não foi nem
comentada nos dias que se seguiram. Insto é que tentava pegar o Didi para uma
surra, pois o responsabilizava pela debandada, porém este só surgiu por ali
quando tudo já havia esfriado e os ânimos serenados. Já era coisa passada
para todos, menos para Insto, que prometia vingança sobre Gerinha.
Mas isto será assunto para
outra crônica.
[1] Quem trouxe a notícia do desafio foi este Editor, que não participaria da batalha por pertencer aos dois grupos simultaneamente. (nota do Editor)
[2] Na verdade não se
tratava de espionagem, mas este Editor estava preocupado com a letalidade de
algumas das armas e provocou o surgimento de algumas "regras" e
impedimentos que, se não ocorressem, a briga poderia provocar muitos
acidentes, inclusive fatais. (Nota do Editor)