

In SANTOS, Wladir dos. CONTANDO CASOS.... Max. 1986
Sorocaba, anos dourados. Eu
ainda calouro com os cabelos começando a ressuscitar e já sofrendo toda sorte de artimanhas para remontar o topete
vitimado pelos veteranos que nunca souberam apreciar, nem a obra de arte que
ele representava e nem as histórias eletrizantes que tinha vivido.
Para se chegar à nossa
República vindo do centro da cidade, o melhor caminho era a Rua da Penha.
Subida forte até lá. Àquelas horas, em que a gente dava por findo o longo dia,
não existiam mais bondes, e o negócio era ir a pé mesmo. Coisa de um
quilômetro, mas para quem tinha vodka como combustível, ficava danado de difícil.
Nessa rua, para a
parte mais central, havia uma série enorme de casarões de famílias
tradicionais, dessas que passam a maior parte do tempo soturnas, mal dando para
perceber que seriam habitadas, o que sabíamos pela presença esporádica do velho
jardineiro que às vezes ia cortar a grama, arrumar as folhagens e coisas assim.
Numa dessas casas
morava uma moça muito feia, branca como cera de vela de defunto, cabelos
escorridos em franja e curtos, óculos redondos de aros cor de rosa, dois dentes
bem salientes na parte superior, e que invariavelmente estava à janela quando
era nossa hora de passar por ali. Não sei para quem ela estava montando a
arapuca, pode ser que até para mim, mas o fato é que todos a olhávamos com
certa gula. Explico melhor: não estou falando do corpo da moça, que nem
sabíamos se tinha, mas da lebre branca, enorme, que sempre estava em seus
braços, com olhos vermelhos e fita também vermelha no pescoço. Bicho dócil, que
se bem feito poderia dar um bom churrasco. Provavelmente dormia no quarto dela,
talvez até na sua cama. Os comedores de gato da República tinham esse palpite
com o belo animal, cerca de quatro ou cinco quilos no mínimo.
Enquanto olhávamos
para a lebre a moça pensava que era para ela, e com isso ficava todas as tardes
a postos para ver-nos passar.
Numa das noites de
sábado em que voltávamos para casa, todos meio etilizados por vodka do Bar Gato
Preto, ao passarmos pela casa da moça vimos o belo churrasco solto no jardim. O
silêncio caiu sobre a turma, ninguém dando um único pio para não acordar a moça
e acontecer dela sentir falta do bicho.
Meu irmão mais que
depressa começou a escalar o enorme portão de bronze batido, encimado por
lanças, e estava quase que passando sobre elas quando um dos outros girou a maçaneta do mesmo e percebeu que não
estava trancado. Foi só abrir e a lebre correu em nossa direção aos pulinhos.
Nós nos preparávamos para dar caça a ela quando a mesma parou bem aos pés do
Satã, um colega de moradia que ganhou esse apelido entre nós por ter ficado
feio como o diabo quando, depois de levar uma vigotada na cabeça, precisou
raspar os cabelos para os pontos.
Trabalho de abaixar e
pegar, sem que o bicho desse um único grito. Preso pelas orelhas, tratamos de
ir rapidamente para casa, onde depois de alguns minutos a lebre já estava
assando em nossa churrasqueira no fundo do quintal.
Satã sabia matar gatos
com facilidade, e era até comedor de cobras, segundo nos contava, quando ainda
morava perto da represa de Paulo Afonso. Contudo, era também expert em matar coelhos e lebres: deu um
simples piparote com o dedo médio no focinho do animal e ele não soltou nenhum
rugido. Tirar a pele foi questão de minutos.
Quem ficou penalizado
ao ver a barbaridade do crime foi
Amaral, professor de Educação Física do Instituto de Educação que morou
conosco até o dia em que se casou. Para ele Satã argumentava, sem gozação
alguma, convicto, que a lebre foi colocada à nossa disposição pelo próprio
Deus, só isso explicando ela vir correndo e parar em nossos pés, sem emitir um
único berro e sem morder. Ficou dolorido, resmungou, mas comeu.
O bicho ficou pronto
lá pelas quatro horas, quando ainda estávamos jogando 21 para passar o tempo.
Estava delicioso.
Por volta das oito
horas da manhã, com todos dormindo tranqüilamente, ouvi alguém batendo palmas no
portão. Espiei pela fresta da porta e vi que era a moça da janela.
- Pois não?
- Eu vim buscar minha lebre que vocês pegaram ontem à
noite em minha casa...
- Lebre? Mas que lebre?
- Não se faça de desentendido, moço. Eu quero minha
lebre, que ela é de estimação...
- Moça... eu lhe digo que aqui não tem lebre alguma... respondi-lhe sem mentir, mas
também sem esclarecer que ali havia tido
uma lebre na madrugada...
- Vocês vão ter que entregar, ou para mim ou para a
polícia, pois vou agora mesmo dar parte do roubo...
- Pode ir se isso a satisfaz, mas saiba que eu tivesse
aqui uma lebre, qualquer que fosse ela, teria lhe dado de presente agora
mesmo...
- Eu não quero qualquer lebre... quero a minha lebre...
E a moça foi se
exasperando até que, vendo que nenhuma lebre nem coelho sairia daquele mato,
foi-se embora. O pessoal todo se levantou com a discussão, demos boas risadas e
estávamos já nos preparando para discutir o que iríamos fazer para o almoço
quando parou diante da porta uma viatura da polícia.
Quatro soldados,
desses que sempre iam nos aborrecer e não ficavam cansados desse trabalho
inútil que tinham quando alguém, com muita maldade no coração, queixava-se de
nós.
- Quem é o responsável pela casa? Perguntou um soldado moço, que já
sabia qual seria a resposta pois estava habituado a ela. Todos ali eram
professores e consideradas “pessoas de bem”. Só eu era apenas estudante, e
sempre as coisas ruins me eram atribuídas.
- Aqui todos somos responsáveis... não há chefe porque aqui é uma
República... , respondi prontamente, antes que alguém gritasse lá de
dentro: “está falando com ele...” ou
então viesse me pedir algo bem à frente dos policiais, dando-lhes a entender
que eu mandava no pedaço, como sempre me faziam.
- Tenho uma intimação então para todos vocês, para que
compareçam ao Plantão Policial para uma conversa com o Delegado...
- Conversar sobre o quê? Ele não pode vir até aqui?
- Claro que não... É sobre uma lebre que vocês teriam
surrupiado de uma casa aí abaixo, creio que da filha do Coronel Azevedo.
A coisa tomava novo rumo, pelo menos para mim. Nós mexemos em casa de
marimbondos, e por essa altura já pensávamos na encrenca montada por termos
feito churrasco com a lebre da filha do alta patente.
- Daqui a pouco estaremos lá... podem ir na frente...
- Tenho que levá-los pessoalmente...
- ?! - diga-me, soldado, e como pretende colocar seis
homens dentro de um jeep que já está com quatro pessoas? Só se vocês foram em
nosso colo...
O sujeito ia dizer
alguma coisa quando apareceu meu irmão com cara de quem estava acordando àquela
hora, e a coisa ficou acertada com ele, que se responsabilizou pela nossa ida à
Delpol.
Fomos realmente até
lá, mas por volta das quatro da tarde. O Delegado estava furioso com o soldado
que tinha confiado em nós, mas quando viu a turma chegando se acalmou, indo
logo perguntando, bem à frente da moça, que ali se encontrava desde as dez da
manhã, ainda inconsolável:
- o que vocês fizeram com a lebre da moça?
- lebre? Mas de qual lebre estão falando? Nós podemos ser
comedores de gato, mas não de lebres, esclareceu prontamente Satã.
- Não há provas, moço... eu sei que foram vocês... pensa que nunca reparei que olhavam para ela
sempre que passavam por ali?, esclareceu a dona do bicho.
- Olhar para a lebre? Moça, mas como você se dá pouco
valor!... eu olhava mesmo, mas não era para a lebre, mas para você, que acho
uma moça muito bonita, fotogênica, olhos fulminantes, pele lisa como se fosse de porcelana, cabelos... esclareceu Roberto à moça,
notando até que ela havia perdido a agressividade e agora nos olhava com ares
condescendentes. Não há nada que produza
melhor efeito que um elogio falso a uma moça feia que nos acusa de alguma
coisa.
Alguns instantes
depois ela retirou a queixa que havia feito e se foi, quando o Delegado nos
pediu para ficarmos ali para um “interrogatório mais severo”.
- Digam-me aqui. Estava boa? Vocês tiraram a lebre de
dentro da casa da moça?
- Deliciosa, o Senhor perdeu um churrasco e tanto... vá
lá no próximo sábado, pois pretendemos comprar uns franguinhos e estaremos
fazendo um churrasquinho para passar o tempo... Quanto ao ter tirado a lebre,
não fizemos isso. Nós estávamos passando por ali quando nos assustamos com
aquele bicho grande, branco, correndo em nossa direção. Sem saber que era
lebre, dei-lhe um chute no focinho pensando que ia morder meu pé e ela morreu.
E,... já que estava morta...
Voltamos para casa com
a promessa do Delegado em surgir por lá no sábado seguinte.
Contudo, a coisa não
parou aí. Satã começou a ficar condoído pela moça e pelo sofrimento da mesma,
só amainado pelos elogios do Roberto. Ele iria devolver o bicho a ela. Em
partes sim, mas devolver.
Pegou a pele e enrolou
como se fosse papiro, juntou os ossos que estavam no lixo e providenciou para
que também o que tinha sido comido por ele fosse ali empacotado.
Na madrugada da
segunda teve a pachorra de se levantar da cama, pegar o pacote e ir
até a casa dela para devolver. Jogou por cima da grade e voltou correndo para o
merecido sono dos justos.
Por um bom tempo ela
não nos esperou mais à janela, só voltando a fazê-lo alguns meses depois,
quando sempre dirigia olhares gulosos na direção do Roberto, quem sabe
esperançosa de que os elogios que lhe fizera, na Delegacia de Polícia, fossem
verdadeiros.
No sábado seguinte o
Delegado veio ter à nossa República, junto com um dos policiais. Ficaram
jogando 21 até de madrugada, saboreando dois frangos à passarinho que estávamos
fazendo e um gato (eu não comia gatos, mas os outros sim), coisas que o Satã
havia caçado nos terrenos vizinhos.
Por volta das três
horas o Satã entra correndo, esbaforido, fechando a porta atrás de si e olhando
pela fresta para saber se foi ou não seguido. Sob o braço, trazia dois frangos
vivos, um já galo, quase que
estrangulados para não fugirem. Quando se voltou para entrar definitivamente,
levou um susto enorme ao ver, bem ali na sala, o policial fardado e o Delegado,
todos nós no mais absoluto silêncio, antevendo qual a desculpa que iria dar
para aquela cena que não deixaria dúvidas em ninguém.
- Oi, tudo bem? Que bom que vocês estão aqui... vejam... eu acabo de
ganhar estes dois franguinhos numa rifa e esperava fazê-los aqui hoje, mas
temia que todos já tivessem ido dormir. Ainda bem que estão aqui...
E foi tranqüilamente para a cozinha, enquanto que todos ríamos a mais
não poder, especialmente da expressão dos rostos das duas visitas, quase que
dizendo nelas que não acreditariam se alguém lhes contasse ao invés de terem
assistido pessoalmente a tão estapafúrdica
explicação.
-o0o-