|
CRÔNICAS
DOS ANOS DOURADOS
reminiscências da infância nos ANOS DOURADOS |
|
|
|
|
| CRÔNICAS
EXTRAÍDAS DO LIVRO "CONTANDO CASOS..." DO MESTRE WLADIR DOS
SANTOS |
|
"Eu, que também participei desses folguedos nos
"Anos Dourados" como um dos garotos então presentes sob o velho
poste de ferro da Rua Prudente de Moraes em Piracicaba (SP-Br), fico com
os olhos marejados ao reviver não apenas os momentos que julgava
esquecidos definitivamente, mas ao resgatar os nomes de pessoas que
julgava mortas e para sempre desaparecidas da minha vida... sou grato ao
Mestre Wladir, o "alemão" de antanho, pela possibilidade de
retornar ao meu passado através da sua incrível força expressiva e
rever tantos momentos maravilhosos e tantos amigos queridos... Eu,
que pude editar boa parte dos seus livros, posso afirmar com segurança
que não há nada parecido com isto na Literatura em Língua Portuguesa...
Vale a pena, mesmo que apenas para conhecer um pouco desses tempos que
não voltam mais, mas sobretudo para conhecer a obra monumental desse
grande Escritor..." (Max Editor, 1986 - prefácio na primeira
edição) |
|
Max Editor atende pedidos de "CONTANDO
CASOS..." clicando sobre a foto do mesmo, ao alto. |
|
As crônicas
publicadas aqui e no site http://www.cmpp.com.br/Piracicaba
são ilustradas com fotos relativas ao evento, na maioria delas com fotos
do autor, tiradas à época em que ocorreram.
Agradecemos
ao Dr Martin, filho do Mestre, pelas fotos disponibilizadas para este site.
Todas
as crônicas colocadas nesta página são reportadas ao site acima depois
de permanecerem durante quinze dias disponíveis. Para ver as anteriores,
dirija-se a ele e clique sobre a desejar abrir. Obrigado pela sua visita e
volte sempre.
|
| La Belle |
em 27/9/01 |
Ela tinha um segredo muito
bem guardado que, mesmo a gente conhecendo, não contava para ninguém... |
O SEGREDO DE LA BELLE
La
Belle !!!
Poucas garotas
foram tão assediadas e desejadas como essa, vinda de Limeira para os carnavais
de Piracicaba nos anos dourados, creio que três ou quatro se tanto, pois ela
sumiu depois disso e nunca mais ouvimos notícias suas.
Creio isto
ocorreu em 1955 ou 1956, quando eu estava em plena efervescência da idade
adolescente.
Os amigos se
reuniam então na Praça José Bonifácio para contar suas lorotas, mentiras
mais que cristalinas sobre as meninas, mas que gostávamos de pensar que eram
verdadeiras, menos por tudo que pela excitação e sonhos que essas narrações
produziam.
Geralmente os
mais afoitos diziam sobre as liberdades que tinham tido, as transas que haviam
vivenciado, tomando sempre o cuidado elementar e primário de verificar se ninguém
do grupo era parente ou namorado da garota. As irmãs e namoradas eram moças sérias,
mas as demais eram biscates à espera de que um de nós chegasse a elas.
A notícia veio
como uma bomba sobre todos: "Sabem
quem está na cidade? La Belle...". Eu já tinha ouvido falar nessa moça,
então com não mais de quatorze anos, que nos anos anteriores tinha estado por
ali e circulado em alguns Clubes. Agora ela voltava povoando a imaginação fértil
de todos nós, a minha inclusive.
La Belle não
era uma moça que se podia dizer bonita, pelo menos nos meus padrões de beleza,
ainda comprometidos com imagens mais sóbrias e angelicais de Princesas que o
tempo cuidava de apagar rapidamente em mim. Era ruiva, olhos verdes, um tanto
cheia de sardas, baixa e até um pouco rechonchuda, voz um tanto estridente, mas
dotada de seios grandes e corpo bastante sensual que ela gostava de exibir em
partes, exatamente da forma como qualquer adolescente gostava. A seu favor tinha
o fato de que era muito liberalizada com os avanços dos rapazes, gostava de se
mostrar e ser admirada, tocada, beijada, apalpada... Ruim mesmo era o fato de
que ficava na casa de uma Tia que assumira o papel de guardiã da sua virgindade
de há muito perdida, e levava a sério as recomendações da mãe da moça a
respeito das más intenções dos rapazes.
Mas, o que
diziam os amigos que tinham tido acesso a ela no ano anterior? Um deles, o
Alcarde, tinha namorado a moça durante os quatro dias do carnaval e tivera que
enfrentar duas brigas com outros pretendentes. Mesmo com essa desvantagem de ser
obrigado a disputar a moça aos sopetões, descrevia com detalhes tudo -absolutamente tudo- o que haviam feito, onde, como,
quando. A moça podia ser tida como uma iniciadora de pessoas na vida sexual, e
todos nós estávamos ali prontos exatamente para isso.
Não nos
passava pela cabeça por que nenhum dos rapazes fazia qualquer demonstração de
desejo por continuar neste ano o que haviam interrompido no anterior.
Por vários
dias a imagem dessa moça ficou em minha retina, produzindo ondas de calor pelo
corpo todo. Saí numa tarde e fui passar por perto da casa onde ficava, na Rua
Luiz de Queirós, e para susto meu encontrei ali vários dos meus amigos
sentados nas raízes salientes de uma árvore, aos quais me juntei. Coincidência:
todos estávamos apenas passando por ali e resolvemos parar um pouco à sombra,
na esperança disfarçada de vê-la e ser notado por ela. Estávamos ali há
algum tempo conversando, olhos fixos nas janelas da casa, quando ela saiu para comprar alguma coisa no armazém da
esquina.
Andar lento,
sensual, malicioso, gingando os quadris de modo excitante, antecedendo naquela
época o sucesso das mini-saias que só depois de anos passou a ser moda entre as garotas. Passou
diante de nós sem olhar ao lado,
mas sentindo que todos ali a observavam e a despiam de modo generoso com os
olhos e imaginação. Voltou e passou novamente perto de nós, como se não nos
tivesse visto. Depois de alguns minutos a tia surgiu à janela, olhou-nos como
se fôssemos lobos querendo comer sua ovelha e fechou-a batendo forte.
Teriam sido sinais claros, à todos nós, de que
elas tinham outras idéias com relação a
rapazes, não fosse uma ocorrência: à noite uma prima minha, residente
nas proximidades dessa tia, veio à nossa casa para me dizer que La Belle
gostaria de me conhecer mais de perto, que havia me notado sob a árvore, etc.
Mais ainda, vinha me convidar para uma "brincadeira dançante" na casa
da tia, na noite seguinte.
Aquilo era
demais! Ser convidado pela La Belle era coisa para contar no grupo, de peito
inchado, como galo vitorioso. Chegara a minha vez de roncar meus papos...
No dia
seguinte, por volta das vinte horas, eu estava chegando à casa, de terno,
engravatado, como nessa época os rapazes se vestiam. Pensei que eram poucos os
convidados mas encontrei um quintal apinhado de gente, creio que a metade de
rapazes e não conhecia nenhum deles para formar uma dessas rodinhas que os mais
tímidos formam em ambientes assim. Encostei-me num canto, aceitei um copo de
Cuba Libre e fiquei ali apenas observando as pessoas. Tanta gente que nem havia
lugar para dançar. Quem me viu e veio em minha direção foi minha prima. Ela
cumprimentou-me e depois de trocarmos algumas impressões sobre o pessoal
presente, avistou ao longe La Belle, acenou para ela. A moça me viu e começou
a caminhar em nossa direção. Bebi o copo todo de uma só vez, em tempo de
pegar outro que estava sendo servido naquele
instante, a que dei fim rapidamente e parti para o terceiro, tentando
encontrar neles a coragem que estava me faltando.
Eu já estava
no terceiro copo, tudo começando a girar em torno de mim, quando La Belle
conseguiu chegar até nós, vencendo os assédios que teve pelo caminho, com
todos querendo conversar com ela.
A moça estava
simplesmente deslumbrante e tentadora, com os seios fartos colocados ali à
mostra pelo decote cavado, pouco deixando para a imaginação. Minha prima saiu
deixando-nos a sós, e ficamos conversando essas tontices que gente nessa idade
habitualmente conversa.
Nem imagino
quanto tempo ali ficamos, mas em determinado momento ela me puxou pela mão,
convidando-me para que fôssemos em busca de mais Cuba Libre lá na copa da
casa.
A sala estava
sem ninguém, pois o tio dela havia colocado uma regra que todos estavam
seguindo: não queria ninguém invadindo a casa, devendo todos permanecerem no
quintal. Entramos e La Belle fechou a porta atrás de si.
Nem bem
entramos na copa, ela se enlaçou com os dois braços em meu pescoço, colou seu
corpo ao meu e começou a me beijar, a princípio de maneira comedida e depois
vorazmente, arrastando-me para o lado da geladeira e tirando-nos assim da linha
de visão dos demais da casa, se a porta fosse aberta.
Este momento
serviu para me revelar a razão pela qual quando um rapaz saía com essa moça
nunca mais queria sair novamente, embora ela estivesse disposta a dar tudo que
um rapaz desejasse dela: além de falar horrivelmente mal, erradamente, ser
incapaz de conversar qualquer coisa pois estava fora de tudo o que cercava meus
interesses, criando nela um aspecto um tanto grotesco de burrice crônica,
quando abria a boca era um desastre: o cheiro que saía dela era incrivelmente
nauseabundo, de carniça, que me revirou o estômago saturado de rum.
Estávamos nós
nesse interlúdio e eu tentando me desvencilhar dela que cada vez mais colava-se
em meu corpo, quando o tio apareceu por ali novamente e, dando conosco assim
colados e escondidos, partiu por sobre nós com uma fúria monumental, que me
deixou completamente arrasado. Depois da bronca o cidadão me convidou, com ares
de pouco amigo, a que me retirasse imediatamente da sua casa, ao que atendi
prontamente pois realmente eu havia abusado da sua hospitalidade e estava em
estado bem mais etílico do que uma resposta permitiria.
No dia seguinte
minha prima queria saber sobre nosso encontro depois que nos deixou sozinhos, e
quando me encontrei com a turma na praça, todos queriam saber como tinha sido a
nossa transa...
Claro que não
contei a verdade. Narrei com pormenores as coisas que gostariam de estar
ouvindo, ante os olhares incrédulos dos que haviam estado com ela
anteriormente, e fui depois para casa, ciente de que deixei mais alguns esperançosos
de um encontro com ela...
No dia seguinte
tratei de montar um esquema de despiste, mas na verdade não foi preciso usá-lo
pois não a vi mais. O tio havia remetido a moça de volta para a casa dos pais
em Limeira mas por um bom tempo ainda comentávamos sobre as transas que tivemos
com ela, sob as expressões de inveja dos que nada haviam conseguido até então,
acalentando neles a esperança de que, no ano seguinte, tivessem a sua vez...