MORTE DE MUSSOLINI
Ele era pequeno, menos de três anos, o que o colocava mais ou menos como saco de pancadas de todos os demais igualmente pequenos, porém mais velhos que ele. Seu nome ninguém sabia e acho que nem ele mesmo. Nós o chamávamos de Mussolini pela semelhança que tinha com a fisionomia do ditador italiano que naqueles tempos estava levando a Itália para o desastre que se seguiria. Era em 1945.
Não pertencia ao nosso grupo, todo ele residente na Prudente de Morais entre a Santa Cruz e a Pinto de Almeida. Mussolini morava mesmo com a mãe e alguns irmãos naquela favela que ao longo do tempo se formara ao lado da linha férrea da Sorocabana. A mãe dele era bruxa, eternamente descabelada, suja, feia, suando muito sempre, gorducha, cheirando mal. Para nós era intrigante ver que uma pessoa com cabelos loiros morasse na favela, que nos parecia lugar apropriado para gente preta.
Da ninhada da bruxa, apenas Mussoline era branco, cabelos loiros desbotados. Os demais eram pretos e mulatos, mas nenhum era branco, nem a única irmã que era pretinha e cujos cabelos eram penteados sob a forma de duas pequenas tranças duras como se fossem antenas na cabeça. Além da sua fisionomia, lembro-me muito bem que nós o reconhecíamos desde longe, quando vinha em nossa direção, pelo meio da rua, gingando o corpo. Estava sempre pelado e nem tinha vergonha disso. Também não ria nunca e até chorava por qualquer coisa que gente dizia ou por qualquer peteleco que alguém lhe dava na cabeça por fazer coisas erradas.
Chegava e ia para o seu lugar: uma soleira de garagem, onde se sentava e ficava assistindo nossas brincadeiras e ouvindo as lorotas sobre assombrações, caveiras, etc. sem dar um pio. Quando ele abria a boca para dizer alguma coisa, todos mandavam que se calasse, e se Insto lhe dava um tapa, todos nós também nos achávamos no direito de dar também.
Seria um menino que passaria despercebido ali se não fossem algumas coisas nojentas nele: quando ficava de cócoras invariavelmente defecava no lugar, não se limpava, deixando sob o nosso poste o ar pestilento. Um dia Insto pisou no monte de merda e ficou furioso com Mussoline, metendo-lhe a mão por ser porco. Nós também lhe demos uns tapas por esse motivo. Quando isso acontecia, partia de volta para sua casa, mas no dia seguinte estava novamente entre nós. Outra coisa nojenta é que das suas narinas pendiam permanentemente dois filetes de muco verde, que de uma chupada só mandava para dentro quando começava a atingir a boca. Quando o muco não estava escorrendo, ele ficava cotucando as narinas e colocava a meleca na boca. Nem sei quantas vezes apanhou por isso, mas era quase que diariamente e não aprendia.
Tirando essas coisas era um garoto que dava pena em todos nós, especialmente quando a bruxa vinha buscá-lo. Ela o pegava pela orelha e ele era assim levado, mal tocando o chão com os pés. O menino não aborrecia, era quieto, não se misturava conosco, nada dizia de errado e obedecia às ordens de todos nós. Era mandar levantar e ele se levantava, para logo em seguida, alguém mandando sentar, ele sentava-se. "Mussoline, vem cá", e ele vinha, para retornar ao seu canto quando outro lhe dizia "Mussoline, vá pro seu canto"...
Um dia, depois do almoço, vimos que as pessoas passavam pela nossa rua correndo, como se algo de grave tivesse acontecido mais para perto de centro da cidade. Saímos para ver e notamos que na esquina da via férrea havia se formado uma grande concentração de pessoas. Como minha Mãe queria ver o que tinha acontecido, fomos juntos com ela, pois não tínhamos autorização para sair do nosso quarteirão.
Meu irmão, Insto e eu chegamos perto do trem que havia saído dos trilhos bem à frente da casa do Mussolini. Deu para perceber na hora o que acontecera: o menino brincava sossegadamente à margem dos trilhos como sempre fazia, quando o trem carregado de açúcar vindo da Usina Costa Pinto saiu dos trilhos e tombou sobre o menino, que ficou esmagado sob o mesmo.
Naquela tarde todos ficamos com dó da bruxa, que tirava os cabelos em mechas, lamentando pela sorte do menino: "Ai...Ai... meu pobre filho... o único branquinho que eu tinha... Deus, se tinha que pegar um, pegasse um dos meninos pretos, mas não este que eu amava tanto..."...
Todas as mulheres dali tratavam de amparar a bruxa e levá-la para dentro da casa, de onde se ouvia os berros dela, mas voltava logo em seguida para fora da casa, recomeçando os gritos. Ate minha Mãe ficou com os olhos marejados por ver aquele sofrimento.
Os operários da Sorocabana tentavam inutilmente tirar açúcar com pás, porém ele escorregava sobre o garoto novamente, e assim iam passando as horas, já sem esperanças de resgatá-lo com vida. Contudo, continuavam nessa faina, mais por desencargo de consciência que por esperanças. Nós fomos embora para casa, pois minha mãe não queria que víssemos o corpo sendo desenterrado.
Meia hora depois tudo havia acabado, e mais à noite, por volta das dezenove horas, já estávamos novamente sob nosso poste, ainda constrangidos com a morte do menino. Todos nós dizíamos, uns aos outros, que nunca levantamos a mão para o menino.
Foi nesse verdadeiro muro de lamentações que pudemos ver, lá pelas bandas da linha do trem, o vulto de Mussolini subindo com seu gingar característico a rua Prudente. Fixamos os olhos para ver se não tinha erro: não tinha: o vulto era mesmo o dele. Mas não o vimos chegar: todos saímos correndo dali para que não fôssemos importunados pelo fantasma do garoto.
Foi no dia seguinte que ouvi minha Mãe contar para a nossa vizinha o que acontecera:
"Perto da entrada da noite surgiu uma grua enorme, montada sobre eixos ferroviários, para erguer os vagões tombados. Ninguém mais estava cavoucando o açúcar para a inútil tentativa de resgate do corpo do indigitado garoto. Quando se retirou o primeiro deles, o açúcar se agitou e dele surgiu ninguém menos que Mussolini, todo branco, metendo a boca no mundo:
"fidi puta... fidi puta..."
Foi uma alegria só, com muita gente abraçando o garoto, enquanto que foram chamar a bruxa para contar a boa notícia. A mulher veio correndo e, não acreditando no que via, abraçou o garoto e deu-lhe uma porção de beijos, numa cena comovente. Logo depois, recompondo-se, ela pegou o menino pelas orelhas como sempre fazia, aplicou-lhe umas chineladas e o levou para dentro, berrando com ele: "não sei porque não foi verdade... esta peste ainda me mata do coração...".
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